Descrição:
Ilídio Salteiro nasce em Alpedriz em 1953, entre a Nazaré, Alcobaça e Leiria. No final da sua infância estava em Lisboa. Ainda um pouco antes de se formar em Artes Plásticas-Pintura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa em 1979, inicia um percurso constante pela criação plástica com uma opção evidente e esclarecida para a pintura e para o desenho. Cedo se apercebe dos mecanismos colectivos da criação, experimentando criticamente e sempre de maneira original, os passos que a arte contemporânea vai dando e, para um observador bem posicionado, um visível acompanhamento de vanguardas. Nos anos 80 expõe regularmente numa galeria comercial mas logo toma a opção de expor em espaços alternativos o que lhe dá maior autonomia criativa. Com uma grande capacidade de trabalho, não expõe todavia a maior parte da obra, a qual passa a estar depositada a título de “trabalho de pesquisa e esboço” para as obras “maiores”. Durante os mais de 25 anos de produção plástica (a sua primeira exposição individual foi em 1997 na Galeria da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa), desenvolveu um trabalho complexo e muito criativo, reformulando linguagens pictóricas e formais, inventando poéticas e usando sem preconceitos os meios e técnicas da pintura e do desenho. Desde meados dos anos 90 o seu léxico criativo tem-se aproximado de um quotidiano composto de formas simples, que trabalhadas sistemática e quase obsessivamente, se transformam numa procura incessante de conceitos abstractos, construindo universos pictóricos insólitos, a que volta de tempos a tempos, transgredindo-os pela via da reincidência, e transformando-os em profundos referentes, que por isto se imbuem de uma aura quase mí(s)tica, trazendo à sua obra uma distanciação, por vezes apenas intuída, desse mundo inicial do quotidiano. É frequente trabalhar ao mesmo tempo propostas criativas diferenciadas e distantes que acabam por se identificar e criar elos tão fortes que se mostram indissociáveis. As obras que agora mostra fazem parte de um desenvolvimento de três vertentes do seu trabalho entre os anos 1998 e 2005. As pinturas da série Terra de Siena, como eu as denomino, fazem parte de um destes temas recorrentes que criou durante este período: um jogo de abstracções formais à volta de uma cor da terra, em que as associações podem ser quase intermináveis, prevalecendo as formas, as suas volumetrias, sombras, reflexos e brilhos, densidades matéricas diferenciadas, como pedras esculpidas e habitadas emergindo de fluidos vibrantes e quentes. São igualmente expostos alguns trabalhos de pintura e desenho sobre azul, traduzindo a procura de ilhas errantes, potenciais reveladoras do maior dos segredos. Uma parte do seu trabalho de busca sistemática de formas pode ser observado nos cinco Cadernos de Desenho que, pela primeira vez, apresenta. Papel, grafite e tintas associam-se na maior parte das folhas criando modelos e modos de contemplar e fazer. As encadernações transformam definitivamente os blocos de folhas em obra única. Apresentando também algumas das obras de maior escala elaboradas durante este período, esta exposição proporciona uma aproximação à obra de Ilídio Salteiro, permitindo relacionar os métodos e processos de fazer com os resultados.
Dora Iva Rita Mafra, Julho de 2005
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