Descrição:
Como se pode representar um espaço de signos imemoriais, formas ou alusões a formas onde reina o silêncio e onde uma realidade visível a três dimensões, num incessante duelo de projecções, oposições ou justaposições cromáticas, acaba por triunfar sobre uma superfície plana?
Toda a pintura de Ilídio Salteiro se parece resumir a esse conflito entre a superfície plana e a arquitectura das formas / objectos que, por vezes, assumem uma dimensão quase arquitectural.
O artista (o pintor), recusa a simples abstracção, a realidade invisível que se pode adivinhar (entrever), para além do simples jogo cromático. É uma pintura de reflexão sobre o espaço, mas um espaço que se situa sempre dentro de uma linguagem pictural, um espaço mental, por assim dizer.
Um objecto cria espaços de sombra, espaços de luz, e é, isoladamente, um objecto enigmático, como o são a associação de vários objectos, todos eles enigmáticos, na sua essencialidade metafísica e de arquétipos de um mundo de formas ancestrais e primitivas.
Eles vêm de dentro de uma procura em que o primitivismo dessas mesmas formas, recriadas ou imaginárias, se transmuta num universo fantomático, que incorpora a unicidade e a multiplicidade, desde a aparição metafísica à reprodução em série, como um jogo de duplicidades, em que o artista se compraz em ordenar um espaço, como o homem pré-histórico alinhava menhires ou objectos de culto.
São projecções de sombras ou manchas cromáticas de luz que traem uma série de referências cultas às pesquisas de um Caravaggio, ou, nos tempos mais modernos, de um Soulages. Onde, se quisermos, irrompe também uma ponta de pós-modernismo, na elaboração de uma linguagem de formas arquitecturais colhidas num vocabulário rico de reflexões eruditas sobre a tradição vernacular. Ou na modelação, oh também quanto erudita! ..., da superfície curva de uma parede, à maneira já “clássica” de um Corbusier.
À primeira vista, dir-se-ia que a pintura de Ilídio Salteiro é uma pintura metafísica, pela evocação que sugerem os objectos assim colocados num espaço abstracto e imemorial. Mas o espaço, mesmo se tratado com os instrumentos do suporte cromático, em que consiste a pesquisa essencial do artista, acaba por invadir a pintura, que deixa de ser algo de alheio ao espectador para se transformar em lugar (espaço) habitado. Habitado pela realidade invisível que se esconde por detrás das obsessões ou aparências multiformes dos objectos ou formas arquitecturais, para se transformar na essência da própria pintura e, do outro lado das aparições visíveis do invisível, na sua emanação primordial. Um espaço habitado pela pintura como em todas as utopias da arte da representação, na sua bidimensionalidade elementar.
Lucília Verdelho da Costa
13 de Maio de 1998
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