Descrição:
A pintura de Ilídio Salteiro retira da exploração diversificada de um imaginário rico, a sua principal força atractiva. Com efeito, o universo de referências é extraordinariamente sugestivo, misturando sabiamente reminiscências (quase evanescentes) de urna infância afinal não muito longínqua e acutilantes observações muito pessoais sobre a história da pintura, da espacialidade despojada dos primitivos italianos ao espaço-tempo metafísico de Chirico. Aliás, é o espaço o elemento primordialmente instituidor da ordem pictórica de Ilídio Salteiro.
Em primeiro lugar, o espaço omnipresente da casa, exterior e interior, simultaneamente contentor e contido num espaço envolvente pelo qual se prolonga. Por vezes, desse espaço interior (metáfora do espaço interior do próprio pintor), entrevê-se por uma porta, por uma janela, uma luz (outro tempo?), ou um espaço exterior, em que surgem aqui e além, referências a um cais e ao mar (a partida ou a aventura por acontecer). Depois, o espaço “desertificado” de figuras humanas: as que fazem episodicamente a sua aparição são na realidade signos da morte ou da prisão que o invólucro/casa representa.
Finalmente, esta subtil intromissão da morte no espaço figurativo, se é, por um lado, reforçada pelos escassos elementos vegetais (troncos calcinados ou simplesmente sem vida aparente, por outro lado, é combatida nos violentos tons de vermelho das coberturas dessas casas/sepulcros que, ambivalentemente se tornam, assim, fontes de renovação da vida.
Mas, a pintura de Salteiro, também é exploração de texturas, com que as superfícies se animam e vibram à luz, tratada com mestria e original sentido poético.
Fascinantes e perturbadores, os seus quadros, superpovoados de sinais, mas de enquadramentos impecavelmente delimitados na sua economia de meios, restauram-nos o gosto pela observação demorada, fruidora, da própria pintura, não apenas como acto de pintar mas como reflexão sobre a memória e estatuto da imagem.
Fernando António Batista Pereira, 1992.
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