Descrição:
A actual exposição de pintura aponta para três trajectos singulares que não reivindicam linhagem, nem consciência grupal de afinidade. A dissonância que o olho apreende nestas pinturas desregula a ordem pacífica do conceito, anulando consecutivamente a pretensão de nelas encontrar uma solução plástica comum, assente na ordem linguística dos seus processos.
São três inscrições discretas, que revelam a picturalidade no seu poder manifestante de errância, sem contudo atrelarem o olho a uma qualquer narrativa legitimadora do acto de pintar. Por outro lado, estas três poéticas, não instauram nenhum processo deliberado, em se autodesignarem por qualquer ponto zero inaugural — pois já há história, antes de se iniciarem trajectos ou percursos.
O que ressalta destas três experiências é mais uma vez, a lúcida evidência, que a pintura consegue falar dela própria, todas as vezes que der lugar à transfiguração e ao saber artisticamente reflexivo das suas virtualidades próprias. A arte, como diria Paul Klee, não reproduz o visível: a arte torna visível. O diálogo entre o que o pintor faz, resolve-se no plano, do que ele dá a ver. O espectador, o que contempla o quadro, não faz mais do que prosseguir o processo disponível deixado em aberto e articular em visões (se for capaz) as camadas sobrepostas que serviram de esboço construtivo ao pintor, emprestando-lhes carga subjectal. A pintura experimenta-se na plástica, à qual chega através do elementarismo dos seus componentes mínimos de fabrico: cor, luz, matéria e plano. Acabando o quadro por ser, no prosseguimento da sua elaboração perfomativa, uma ANATOMIA possível de um olhar critico. Na diversidade destes trabalhos o que é tornado visível é um fazer-se filtrado por vários expedientes que singularmente interessa evocar, para aprender o lado constitutivo e marcante de cada operação.
Os traços da pintura líquida de Dora Iva Rita, organizam-se em torno de uma nebulosidade onde a mistura aquosa da cor consentânea com a transparência vegetal, dilui a figura no espaço instável e intermitente de uma aparição/emersão, materializada no espaço instável e intermitente de uma aparição/emersão, materializada pelos reflexos ondulatórios da água, alude a um meio marítimo oscilante, onde tudo flúi, muito embora a figura de modo lacunar ai venha estabilizar a composição.
Ilídio Salteiro associa a figura à dimensão escultural de uma pose, ou de uma silhueta desenhada num espaço geométrico, em que o volume alterna constantemente, com a força plástica da demarcação de um LUGAR — talhado por linhas rígidas e envolventes. As linhas desenham uma zona limítrofe cortante, que é realçada pela tonalidade labiríntica que a figura dramatiza. A monumentalidade gera a desproporção dos dois meios: a arquitectura assente na mineralização e na solidificação e o meio aquático circundante que acolhe o iconograma irónico de um Narciso, figura-sombra sempre voltado para a água.
A pintura de Luís França remete-nos para o espaço interior-écran, onde a luz irrompe disseminando-se numa mobilidade cambiante de reflexos. A estrutura geométrica desta pintura, funciona como painel de captação de luz. A brancura excessiva da luz desconjuntura e materializa, tornando evanescente o que à partida era marcadamente geometrico-estrutural. A mancha pictórica reformula o espaço, devolvendo na cor, a coagulação matérica plasticizada pelo toque cego da luz, que a trespassa e que por momentos a diafaniza.
A sensibilidade cromática desta composição serial, é digna de ser reavaliada, pelo acerto conseguido nos derrames e no alastramento expansivo da luz. É pela cor que o quadro se torna expansivo e se liberta das ancoragens rígidas da geometria. Uma pintura na qual a imaterialidade da luz desenha, através de uma geometria da cor, as fosforências fluidas e incandescentes de uma aparição, com força para pulverizar o reino ôntico e pesado da estrutura.
Emidio Rosa de Oliveira,
Catálogo, Dora Iva Rita, Ilídio Salteiro, Luís França,
Galeria Altamira, Lisboa, 4 de Junho de 1987.
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