Descrição:
Esta exposição do pintor Ilídio Salteiro vem confirmar a evolução do seu universo simbólico e metafísico, de espaços onde a marca do homem parece distorcida pela estranheza que tanto emerge do mundo como impele a percepão para o domínio do sonho. Já em 1986, ao pintar O Menino sobre a Ponte, Salteiro ajustava graficamente a paisagem a uma nova ordem, vsionária e encantatória, procurando contrastes cromáticos simples na relação absurda da pedra, afeiçoada em ponta, fora de escala, com as flores nascidas do solo amarelo ou das nossas jarras domésticas. O cão e o menino olham em vértice para a estranha e lisa liquidez azul de um rio sem referência nem a montante nem a jusante. O menino é ponte, a vermelho, como a ponte que cavalga, numa espera sem nome. O cão tem a mesma cor do obelisco tombado. Esta visão do mundo ressurge com O Lobo, 1987, e a pedra-obelisco, geometria de uma inteligência emergente ou imanente, ergue-se na vertical, contra o rio em perspectiva, sob o título contemporâneo de O Jardim. Reconhecemos a possibilidade humana desse vínculo, como na Odisseia, de Kubrick, mas o silêncio em volta diz-nos a nossa solidão irremediável. A Casa em U, de 1991, arrasta aquela memória perturbadora e, como outras obras dessa época, flutua num espaço escuro, perturbante, construção de alguèm cujo caminho parece marcado pela forma agora triangular, muito aguda, com o vértice para baixo, aparência equívoca do vazio entre os dois braços daquela arquitectura desnecessária. Esta encenação torna-se cada vez mais chiriquiana, embora vazada em plena noite, contra certa luz lunar. Assim serão as paisagens urbanas, perfuradas por hastes, plantas sem folhas, seres inomináveis. A ponte, de 1992, mostra o mesmo clima surreal, onírico, atravessando um rio artificial, todas as figuras coladas aos salpicos de marmorite em que o céu se transforma. Absurda e suspensa nessa mesma noite que nos envolve, A varanda do Alpendre mais parrece um labirinto que sobe na vertical. A cena urbana transforma-se em praticáveis de um teatro à italiana ou no Pátio com água dentro de uma arquitectura outrora fabril. A Fábrica, justamente, 1993, cenográfica, por cima dos restos do dilúvio. É uma série profundamente amadurecida, diversa nas construções vazias, sem luz, abandonadas em plena noite, como se o passado que parecem representar estivesse para ressuscitar a qualquer instante. As escadas e as rochas quase fecham passagens para outra dimensão, para uma luz que vem do espaço, astro ou lua rasando empenas, terreiros, águas contidas e imóveis. O espaço envolvente agita-se na produção de 1994, 1995, e as representações da razão afundam-se em plongé ou recuperam aqui e além a frieza dos ângulos vulneráveis contra a profundidade de praias longínquas, de holofotes celestes, árvores além, abraçadas umas às outras na janela crua ou na praça cercada de casas hirtas, buracos negros em vez de portas. Casas e arcos inúteis, produzindo sombras apenas com a lógica da geometria. E, por volta do fim dos anos 90, Salteiro, vai cada vez mais longe nas construções que realiza, vistas um pouco de cima, arenas ou em casas que traçam um círculo na bruma da noite, quase bicho longo mordendo a cauda. Gárgulas secas. Fontes pousadas numa terra sangrenta. Arcos primitivos ou corpos de cobras petrificadas, por fim mamutianas, prontas a sugar a imprudência dos gestos perto delas. Assim, diversamente, cada parte multiplicando-se depois, como o puzzle do mundo, desfeito e refeito em pleno non-sense. Brinquedos de temor, em suma. Candeias de cerâmica, barcos de barro, paraísos entrevistos ao lado de caixas de pedra, pousadas na terra vermelha. Tudo o que passa à dimensão do orgânico, mais tarde, em 2001, 2002, continua a oferecer-nos uma ressonância dessa outra ordem perdida, banhada pela mesma luz de um valor forte e teatral. Eis como se pode ver Paisagem corpo de mistura com colagens de latas, pastas de tinta, pincéis, além das camas onde talvez durma o corpo da nossa morte – após o último combate soturno dos galos, bichos sem casa nem terra, os homens perdidos de toda esta deriva nocturna, entre muros e num claro-escuro sem explicação.
Apresentação de ROCHA DE SOUSA, professor/pintor da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Lisboa Maio de 2003
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